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A obra Marceli Andresa Becker de Marceli Andresa Becker foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em deterdeondeseir.blogspot.com.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Do meu caderno de experimentações - LXXV

morta, a fera.


chegar ao seu coração por cateteres

líricos.


era noite, uma infinita noite,

vazia.


porque sabíamos ouvi-la,

tocá-la,


dedilhar


as cordas da sua antiga harpa

genital.


eram nomes.


vozes subterrâneas a se enrolarem

umas às outras,


desgrenhadas,


como se fossem pentelhos.


a derradeira foda

do mundo,


do pó ao pó.


morta, a fera.


(pinças de húmus germinam

para a lentíssima


depilação).

Galeria: Brigitte Niedermair - III

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Visita: dois poemas de Luís Costa

SEM TÍTULO

Todos os venenos se encriptam nas artérias das éguas.
As crinas dos cavalos foram cortadas em honra do belo crime.
O trigo arde nos olhos do homem.
As tendas foram erguidas à volta do cedro magnífico.
Além, a fonte.
Uma mulher lava o sexo de sua filha.
O sangue novo solda-se na claridade da água.
“Estás pronta para o teu noivo, minha filha.”

Ó oásis ejacular!
Conchas onde no vinho se espelham os
Bem modelados gestos desta rapariga.
A admirável altivez do porte com que traz
os candelabros dos antigos oceanos na boca.
O incêndio dos taludes.
As harpas em fogo, pregadas no vento.

Dignidade justa nestas gárgulas que assopram o ébano.
Aqui acendemos a morte com o suor brônzeo de nossas danças.
Exilados, talvez, mas ainda senhores da prosperidade dos venenos.
Ah! Deles retiramos o grande brida iluminada de cristais,
Nas entranhas – já livres de culpa.


SEM TÍTULO

Pão. sal. vinho. a fronte colada no vidro do mel.
os olhos como uma dignidade simétrica.
e os animais. os animais nocturnos seguem
pelos caules das veias,
sorvem os benefícios da noite.

e a mulher espera pelo homem com a firme beatitude
dos frutos negros que lhe ardem na boca.
ela sente o homem.
ela sente a in - contrição do sangue.
geométrico.
os braços, firmes, assentes no arco.
a flecha quebrando o silêncio da água crepuscular
no seu colo uivante.

e os animais nocturnos povoam agora a alma da mulher
devorando-a com um sonho viril
como um crime sagrado.


***


Luís Costa é meu amigo, poeta e uma das minhas referências quando o assunto é poesia. Sabem, tenho até receio de tecer algum comentário a respeito da sua escrita. Vemos aqui um poeta no sentido mais genuíno do termo... Um engenheiro a buscar matéria-prima nos órgãos embalsamados de noites que perdemos de vista, cruas, animalescas. Surrealista, a estrela que ele traz em mãos parece brilhar ritmada por baforadas líricas, o subterrâneo do poema. Assim ela emerge, em brasa. (Diabólico carvão.) Vocês podem acompanhar mais do seu trabalho em Le Gant de Crin. Luís também tem poemas publicados nas revistas Zunái, Eutomia, Triplov, entre outras.

Galeria: Brigitte Niedermair - II

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Visita: dois poemas de Lara Amaral

ESTOPIM


Nunca sei o que será de mim

Pista de mão dupla sem

Desvio

Caixa de música sem

Corda

No pescoço

Dependurada

Como argola que prende cortina

Transparente

Por um fio

Enxergam-me através

Sem desa(r)mar

Como bomba de breve

Pavio


IN.VERTEBRADA


deitada na cama
a coluna é uma vértebra


desarticulada

para o lado que movo
o princípio da minha nuca
vai o corpo
todo

contorcionista

a pélvis ensaiando vida
dança

segue a alma: presa
a fibras óticas
movida a ninguém


***


Lara Amaral é uma amiga querida e poeta que admiro demais! Escolhi dois poemas de sua autoria. No primeiro existe um trabalho depuradíssimo de metamorfose de imagens: a corda da caixa de música de repente se torna corda no pescoço. "Dependurada", ela fica — como a cortina — por um fio. "Como bomba de breve / pavio". Além-poema, o som da explosão aniquila o leitor, o poeta e o próprio poema. Paisagem cataclismada. No segundo, "In.vertebrada", vejo uma espécie de ironia dissonante: a dança lembra bailarina, contorcionista, mas a ossatura invoca a brutalidade da morte. A solidão aparece em ambos... Um sopro pela fresta da orfandade do mundo. Pena que a Lara não tem mais blogue :'(! Segue a ilustração que Lisa Alves, de A Fábula de um Mundo Real, fez com base em "In.vertebrada".