salgado mar
haverá tempo ainda?
deliram
naufragados navios
em seus túmulos
de silêncios e corais
sonhando
improváveis resgates
velas e ventos
cais
SEM TÍTULO
dissonante voz miúda
neste tempo agudo de ruído
e ventania
pétala que não se ouve
quando toca
o chão
e quem quer saber de flores
neste tempo obtuso
de pedra
SEM TÍTULO
frágeis como a flor
que despenca no abismo
rompem-se os ovos
no ninho
e o passarinho
que cantava sol
agora canta a eternidade
***
Nydia Bonetti é minha amiga e poeta. Estou para ver poesia mais delicada que a dela. Como quem levanta o tecido de uma pele finíssima, marítima, ela suspende a linguagem sobre a areia do poema. Somos então convidados a ouvir esse descolamento sutil da música, das conchas, do silêncio. As mãos se movem, espectrais, por baixo da rebentação dos versos. Chegar à outra margem é coisa para aqueles que se permitem de(cantar) pela travessia. Assim percebo esta escrita. Acompanhem mais do seu trabalho em Longitudes.

Novamente, não sou crítica nem nada, não tenho formação nesse sentido. Coloco aqui a impressão que tenho dos poemas selecionados... :)
ResponderExcluir[delicado oficio de transportar a palavra,
ResponderExcluirdo transladar o verso de dentro da pele
para os dias do mundo]
como sabe, se pressente em cada palavra da Nydia; em cada palavra...
Um abraço,
Lb
Nydia é o máximo com sua poesia minimalista,
ResponderExcluirbeijo
nydia é a amplidão evocada em poucos versos. muita precisão e sensibilidade. às vezes fico bobinha sentindo o que ela consegue fazer e desfazer com a linguagem. um presente poder lê-la aqui!
ResponderExcluirabraços!
Mar, depois de várias tentativas frustradas, desisti de querer mudar o tom da minha poesia. Leveza e superficialidade muitas vezes se confundem e esta era minha grande inquietação. Fico realmente muito feliz, quando observo leituras como a tua, a que Sandrio fez, naquele ensaio incrível, e de outros leitores que conseguem tocar a outra margem, tão diferente das suas, e se permitem de(cantar) na travessia. Gratíssima. beijos
ResponderExcluirNydia tem o condão de nos levar, em mínimo texto, ao máximo do sentimento que a palavra pode evocar.
ResponderExcluirConcordo com tudo o que vcs disseram! Nydia, tu não precisa mudar o tom! Na verdade, eu acho interessante pra experimentar, quem sabe, mas o legal em poesia é justamente a diversidade de vozes... Não consigo dizer de quem mais gosto, se de Guenádi Aigui e Robert Creeley ou de Herberto Helder e António Ramos Rosa... São diferentes, sim, mas não se comparam, não faz sentido falar em hierarquia aqui.
ResponderExcluirAmo a tua poesia e aprendo muito com ela. Obrigada por compartilhar com a gente.
Beijos!
Mar
Também acho que a diversidade de vozes no cenário poético é essencial, Mar. Essa coisa de querer uniformizar a poesia é uma grande utopia. A poesia é indomável... E faz de nós o que quer. :) Já falei pra vocês que amo Creeley de paixão? Também aprendo muito a cada poema/poeta que leio. É como digo neste poema: a cada poema que leio / arranco um pedaço / não do poema / mas do poeta / nas madrugadas / saio às ruas sangrando / colagens / que não cicatrizam. Obrigada a todos, bjs, bjs! Nydia
ResponderExcluirNydia, o Creeley é dos meus preferidos tbm! Perfeição na forma, no som, poesia que beira os limites da linguagem - os versos batendo no mundo.
ResponderExcluirEste teu poema eu conhecia! Acho que tu postou uma vez no Facebook, né? Gosto demais da reviravolta no olhar que os versos "não do poema / mas do poeta" provocam... (e que é complementada com "saio às ruas sangrando / colagens / que não cicatrizam".
Beijo!!!
Mar
Muito bom ler a Nydia aqui. Gosto muito também, de como catalisa o que só aparentemente é mínimo. E há a força expressiva, que não cicatriza o que em fragmentos a poeta lança: "saio às ruas sangrando / colagens / que não cicatrizam". É, para mim, além de tudo um dizer-se, também enquanto poética: "frágeis como a flor / que despenca no abismo / rompem-se os ovos no ninho" - a economia, mas o modo bastante expressivo para falar disso que é, em grande medida, fragilidade e violência (o intocado abismo de nascer, tantos nascimentos depois de se morrer). Um poema fortíssimo, mas um passarinho é que se apresenta para falar da vastidão do sol da vida e do canto na eternidade. E teu comentário à poesia dela é lindo, além de propor ótimas visões, que perpassam todo o ler. Beijos aos poetas, leitores todos.
ResponderExcluirimpossível não se encantar - com você e nydia.
ResponderExcluirbeijo. Mar.
o arriscado da poesia de Nydia, por ser sutil e talvez despretensiosa, é ser vista como superficial... mas quem enxerga pra lá da textura, depara-se com uma voz profunda, cuidadosa, minuciosa, de uma delicadeza ímpar...
ResponderExcluirNydia tem o estilo que admiro, que gosto de observar... um jeito todo delicado de sintetizar o dia: uma síntese transbordante!
Beijinho carinhoso nas duas!
Gente, tô sem internet em casa... Beta, vejo bem assim! Beijos pra vcs :)
ResponderExcluirMar
Feliz em estar aqui e feliz com as leituras... Gratíssima a todos, beijos!
ResponderExcluirNão conhecia a Nydia, como tantos que você conhece e oferece pra gente ler. Gostei muito! Quanto à delicadeza, ela às vezes esconde o áspero,o intratável e o feroz. Foi esta leitura que fiz destes poemas dela (preciso ler mais), e talvez por isso mesmo é que gostei muito. Que bom te ler, Nydia. Obrigado, Mar.
ResponderExcluirMar e Nydia, best poetry...
ResponderExcluirAmo as duas..
Aldemar, eu não diria melhor; vejo assim a coisa da delicadeza, e acho fabuloso conseguir trabalhar o poema dessa perspectiva...
ResponderExcluirVisite o Longitudes, tem muita coisa dela lá!
Raquel, <3!!!
Bom te ler também, Norek. Estou seguindo vocês no LE. Todos linkados no Longitudes. Obrigada, Mar, por fazer essa ponte. :=) bjs bjs.
ResponderExcluirRaquel, da minha janela avisto sempre teus varais. Bom te ler. bjs.
ResponderExcluirSigo vocês todos aqui, bem de perto. Apenas tenho andado "meio muda". Leio tudo em silêncio. Espero sinceramente que essa fase silenciosa passe logo... Por enquanto, tudo que tenho a dizer, digo em forma de poesia. Acho que por isso escrevo tanto. :=) Mais uma vez obrigada, Mar. Bjs bjs.
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