(Marceli Andresa Becker)
Heráclito, filósofo pré-socrático, escreveu um aforismo que assim inicia: “Embora seja este o discurso, sempre, os homens tardam, não só antes de ouvi-lo, como logo que o ouviram [...]”. O fragmento não está inteiramente citado porque a proposta, agora, é de que pensemos sobre apenas um ponto do que o pensador sugere: para que aspecto da relação entre homem e discurso Heráclito aponta ao afirmar que “os homens tardam, não só antes de ouvi-lo [o discurso], como logo que o ouviram?”
Essa pergunta pode nos incomodar. Incomoda-nos, talvez, não porque seja muito difícil respondê-la ou porque desconfiemos da legitimidade de traduções de uma língua para a outra, sobretudo quando se trata de grego. Muito menos por imaginarmos que os fragmentos desse filósofo são tão obscuros quanto ele (chamavam-no “Heráclito, o obscuro”, e nunca é demais observar que Borges rememora essa imagem no poema “Os rios” com a sabedoria de quem passou os anos em duas bibliotecas: a real e a dos sonhos). Parece haver uma outra razão pela qual ainda hoje Heráclito nos perturba – uma razão que nos leve a abordá-lo não com os olhos de quem quer descobrir o que cada palavra de seus aforismos significa (em grego e segundo o possível contexto em que viveu), mas com a expectativa de quem pode ter com essa literatura um tipo de experiência estética profunda e única. E, se podemos dizer mais, quem sabe a força estética do fragmento esteja no quanto ele traduz um pouco daquilo que caracterizamos como 'condição humana'.
Os homens tardam em relação ao discurso porque, quando acordam para ouvi-lo, percebem que ele esteve sempre ali. Esta é a condição humana: atrasar-se (sempre) porque o discurso (sempre) esteve/está ali. Tentamos apreender a realidade por meio da linguagem, mas as palavras (sempre) chegam no momento em que o mundo (sempre) já não é mais o mesmo. Tudo flui (já fluiu). Assim, se tentamos nos antecipar em relação ao discurso, assemelhamo-nos a um homem que tem a esperança de um dia acompanhar a idade do pai – sim, um homem pode até chegar um dia a estar com a idade atual de seu pai, mas isso acontece quando este já vive outras idades.
Gustav Aschenbach, numa cena de A morte em Veneza (um clássico de Thomas Mann que foi parar no cinema pelas mãos de Luchino Visconti), fixa demoradamente os olhos no movimento da areia de uma ampulheta. Ao lado do amigo, divaga sobre o que aquele fluir de grãos poderia representar: conclui que nos damos conta de que somos a areia da ampulheta quando faltam apenas três ou quatro grãos para cair e já não há mais tempo de virá-la. Percebemos a juventude na velhice. Da possível associação entre a fala de Aschenbach e o pensamento de Heráclito resulta, por fim, que estamos fadados a acordar para o discurso quando já não há mais tempo de apreendê-lo.
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Sempre me lembro do seguinte poema quando leio este ensaio (já publiquei aqui em outra ocasião):
AUSÊNCIA
não estás lá
quando o poema
é cada vez menos poema
e cada vez mais
tu










