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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Ensaios filosóficos - III

SOBRE HERÁCLITO E O TEMPO

(Marceli Andresa Becker)

Heráclito, filósofo pré-socrático, escreveu um aforismo que assim inicia: “Embora seja este o discurso, sempre, os homens tardam, não só antes de ouvi-lo, como logo que o ouviram [...]”. O fragmento não está inteiramente citado porque a proposta, agora, é de que pensemos sobre apenas um ponto do que o pensador sugere: para que aspecto da relação entre homem e discurso Heráclito aponta ao afirmar que “os homens tardam, não só antes de ouvi-lo [o discurso], como logo que o ouviram?”
Essa pergunta pode nos incomodar. Incomoda-nos, talvez, não porque seja muito difícil respondê-la ou porque desconfiemos da legitimidade de traduções de uma língua para a outra, sobretudo quando se trata de grego. Muito menos por imaginarmos que os fragmentos desse filósofo são tão obscuros quanto ele (chamavam-no “Heráclito, o obscuro”, e nunca é demais observar que Borges rememora essa imagem no poema “Os rios” com a sabedoria de quem passou os anos em duas bibliotecas: a real e a dos sonhos). Parece haver uma outra razão pela qual ainda hoje Heráclito nos perturba – uma razão que nos leve a abordá-lo não com os olhos de quem quer descobrir o que cada palavra de seus aforismos significa (em grego e segundo o possível contexto em que viveu), mas com a expectativa de quem pode ter com essa literatura um tipo de experiência estética profunda e única. E, se podemos dizer mais, quem sabe a força estética do fragmento esteja no quanto ele traduz um pouco daquilo que caracterizamos como 'condição humana'.
Os homens tardam em relação ao discurso porque, quando acordam para ouvi-lo, percebem que ele esteve sempre ali. Esta é a condição humana: atrasar-se (sempre) porque o discurso (sempre) esteve/está ali. Tentamos apreender a realidade por meio da linguagem, mas as palavras (sempre) chegam no momento em que o mundo (sempre) já não é mais o mesmo. Tudo flui (já fluiu). Assim, se tentamos nos antecipar em relação ao discurso, assemelhamo-nos a um homem que tem a esperança de um dia acompanhar a idade do pai – sim, um homem pode até chegar um dia a estar com a idade atual de seu pai, mas isso acontece quando este já vive outras idades.
Gustav Aschenbach, numa cena de A morte em Veneza (um clássico de Thomas Mann que foi parar no cinema pelas mãos de Luchino Visconti), fixa demoradamente os olhos no movimento da areia de uma ampulheta. Ao lado do amigo, divaga sobre o que aquele fluir de grãos poderia representar: conclui que nos damos conta de que somos a areia da ampulheta quando faltam apenas três ou quatro grãos para cair e já não há mais tempo de virá-la. Percebemos a juventude na velhice. Da possível associação entre a fala de Aschenbach e o pensamento de Heráclito resulta, por fim, que estamos fadados a acordar para o discurso quando já não há mais tempo de apreendê-lo.

***

Sempre me lembro do seguinte poema quando leio este ensaio (já publiquei aqui em outra ocasião):

AUSÊNCIA

não estás lá
quando o poema
é cada vez menos poema
e cada vez mais
tu

Galeria: Solarixx - V

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Visita: um poema de Diogo Cardoso

ONDE O SILÊNCIO

a mulher na água brota braços
onde no peito
raízes líquidas a fazem árvore lacrimae

chora o corpo pedindo sede a cada

músculo
areias

ancestrais escorrendo a garganta dentro
nos seios, a gravidade invertida retorce
amores convexos onde tudo quer rasgar sóis

arco-íris obscuros cantam em sua boca
cantilena espectral,

onde o silêncio é braço soberano
onde o silêncio é dor que se cala

onde o silêncio


***


Diogo Cardoso é poeta e amigo. Trata-se de uma poesia cuja tecitura se faz de silêncios e reapropriações internamente furiosas das palavras. É trabalho de delicada implosão. Vocês podem acompanhar a sua poesia em Rascunho a Máquina.

Galeria: Solarixx - IV

sábado, 24 de dezembro de 2011

Do meu caderno de experimentações - LXX

o punhal do tempo,


digo — uma caveira de véu

e grinalda


baba o azeite homicida,

sadomasô,


nas engrenagens de cada

palavra.


há gritos


que estilhaçam janelas.

dá para ouvir de longe.


(ouves?)


cérbero ergue as suas patas

dianteiras


sobre uma harpa,


goza, goza, goza — pinche.

em meio às


cordas.


em meio a este secreto

enforcamento


da música.


assim cai a noite. contam-se

rosas, rodas de


ferro,


para a composição

do buquê.


marcas de carruagem.

o sangue,


um corpo atrás, de

arrasto.


(desde pequena a paixão por

modelos do tipo,


longuíssima a cauda.)


ave, césar, no

céu


as damas de honra ensaiam

performances de


pole dance


com a lança que foi cravada

no peito de cristo.


(até que a ponta atravesse

as galerias mais


fundas


do sono. o sopro,

o ronco,


esta brusca arrancada

do motor dos


vermes.)


quem visse de perto — luzes

a perder de vista,


quase hollywood.


tenho certeza que será capa

do especial de noivas


da marie claire:


"quando ela pôs o pé para

fora da limousine,


salto 18, em formato de

prego
".


casou-se com todos os

homens


a grande prostituta.


entre o pó de suas mandíbulas,

a história ainda masca


testículos


como se mascasse chiclete.


(a bolsa a rodopiar, na rua,

na última esquina


do mundo.)

Galeria: Solarixx - III

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Visita: um poema de Andréia Carvalho

GIGO, GIGO

o tempo se dobra
com humor vítreo
engole o cronômetro
cospe o rolex

há gnose livre pelo ar

o ontem que já foi amanhã
se despe atrás do biombo
como se fosse hoje

bendizemos o chronomancer
batemos os dedos
na pele de seu tambor
em leque

a gnose flutua
gueixa com pavões na seda
de sua face

entre oriente e ocidente
dançamos
com o conde de saint germain & nietzsche

o conde está morto
nietzsche está morto

bang bang bang
fotamecus

ocultista e filósofo
nos sorriem
com suas mandíbulas de pixel

perdemos a hora
na acústica de um flash

espectro de cabala

no ecrã do movimento
poliedro
dos moinhos

há um coringa
no baralho
paralelo & luminoso
dos instantes

subconsciente

com ele
imantamos o jogo do tempo

o colapso na asa de uma mosca volante
é a prece

garbage in, garbage out
amém


***


Andréia Carvalho é amiga e poeta — dessas que surpreendem pela inventividade e pela consistência da voz. Não se trata apenas de poesia; lê-la significa apropriar-se de uma outra perspectiva do real e do irreal, algo como alagar-se na mitologia de base do mundo. Seu livro, A cortesã do infinito transparente, foi publicado pela Lumme Editor (Coleção Caixa Preta). Vocês podem encontrar mais poemas de sua autoria em O Hábito Escarlate. Fico feliz de compartilhar!

Galeria: Solarixx - II

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Do meu caderno de experimentações - XLXXIX

1.


faz dois anos hoje.


a testa, os joelhos, a ponta dos

dedos —


tudo se manteve quente.


2.


(como se um maçarico

noturno


soldasse lentamente os ossos

no interior da morte.


há quem jure que uma revoada

de faíscas,


de pássaros inescrutáveis,

queimava o rosto


dos que se atreviam a chegar

muito perto de ti.)


3.


foi um único golpe, arma branca.

violentamente preta.


deu para ver


a sombra do teu braço

deitar-se


como uma espiga sanguinolenta,

pesada,


nas catacumbas dos móveis.


(lá onde os homens entulham as

primeiras esculturas


do silêncio.)


4.


nem parece tanto tempo.

se retornasses,


encontrarias o mesmo casaco

no cabideiro.


o amor.


aquele violino cujas cordas se

estendem


durante as manhãs,

(sobre o abismo),


como que alumbradas


pelo milagre de terem cantado

em tuas mãos.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Visita: um poema de Raul Macedo

WITTGENSTEINIANA - II

A linguagem não pode ser dita
a não ser quando se mostra
interdita

entre o arco da ponte que não tomba
e as manadas de silêncio que atravessam

perfuram
doem

no poema na desordem inicial
na loucura sem a lógica que grita -

(des)dita
temporal

desmorona.

***

Raul Macedo é um dos expoentes desta nova safra da poesia brasileira e também meu grande amigo. Neste poema em especial, dialoga com o Tractatus Logico-Philosophicus, do filósofo Ludwig Wittgenstein, que estudo em minhas pesquisas na área da filosofia (mas não esta obra... a segunda fase). Infelizmente, a diagramação aqui no De Ter de Onde se Ir deixou a desejar; no seu blogue, todas as vozes. nenhuma, vocês podem acompanhar a versão original, além de outros poemas.
Na próxima semana (não me aguento, sempre tenho de estragar surpresas), Andréia Carvalho.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Do meu caderno de experimentações - XLXXVIII

pesava tanto dizer o que fosse

que se romperam


as cordas.


aos quinze fiquei sem voz.

questão de segundos,


todas as palavras se afogaram.


há quem me aconselhe a

procurá-las


nas águas revoltas da infância.


no tempo que se enverga

lenta, longamente,


(arbusto que é),


até tocar os hectares do

sonho.


(a verdade, porém — nunca

pude descobrir


em que correnteza elas se

perderam.


em que fome.)


hoje, nem o nome. sou este

bater de braços,


quando muito,


esta pilha de náufragos que

ainda escrevem


como se quisessem respirar.

Galeria: Jerome Abramovitch - VI

sábado, 10 de dezembro de 2011

Do meu caderno de experimentações - XLXXVII

qualquer dia destes

hei de virar


o poema


de frente pra musa,

medusa —


a que não olha o

espelho.


escreverei sobre

a pedra.


lápide.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Visita: dois poemas de Roberta Tostes Daniel

ONDE A VEGETAÇÃO SE RASGA


Onde a vegetação se rasga
Para o sol, o sangue
O rastro da fuga

Verde,
Vermelha
Selva – me suga

Como a mais pura seiva:
Mãos na palavra
Nua.


AINDA


No silêncio: compasso de solidão.

Depois que a música (me) acaba,

Fazer o sem-lugar onde desvio

Linguagem e desejo.

Fremir de ondas

Entre mim e canção,

Escrever as pausas de outra:

Mais sutil, de sombra.

O que eu não toco: pertença minha

(toda escuta, posse).

Onde não sou e não tenho;

Até que ouço, simplesmente.

Presa por vontade

De escutar o que é livre:

O inalcançável movimento

Do mar -

O chamado:

Palavras instigando ondas.

Ouvir o tempo insondável

No mesmo silêncio de corredores e sótãos.

Menina, lia. Escutava Quintana

Onde todas as canções comandam a nau

Apinhada de meninos mortos.

Terrível-suave.

E virgem. O silêncio virgem.

Ocupá-lo com desejo e memória,

Violentá-lo. Se tento calar,

Bebo o tempo: nau frágil.

Um ponto afogado e luminoso da escada,

Perto do peito: o porão do prédio.

Sou eu, um barco ainda ouvindo em segredo.

Degredada em sombra.

Um buraco de luz; deixada pela canção

E pelas brechas nos tijolos.

Abri a porta para o vazio.

Veio a rebentação. Nem perto o mar.

Os vizinhos não sabem; suas casas quando acendem;

Luzes me arrebentam faróis no peito.

As cortinas me abrem. Não saí do quarto.

Tudo veio à voz, depois da voz, minha voz sibilante.

O corredor ainda grande.

Meu sem-lugar: linha do tempo.

Tento uma ausência. Tudo lembrando.

Imagens correm, três delas, ardendo.

O novo. Arrebenta o novo. Oscilações de novo.

Até mesmo no fogo. Tudo são águas.

É um estar-se preso, realmente

(como no amor).

Quem ouve o silêncio, sem fim,

Devorando quem canta,

Move o sagrado, morre em mim.

Não só leveza. Todo instante é um corte,

Toda delicadeza funda o sal na voz

E um corte sempre fala ao dentro.

Arde o vigoroso.

A carne não é rente;

Requentada no sangue, vem antes

(na alma do que não fomos).

Nos afogamos.

A palavra, aprende:

Vai fracassar.

Como a música, seu fim.

Um tempo de mortes, no sempre.

Mas não enquanto:

O canto.


***


Roberta Tostes Daniel é amiga e grande poeta! É uma honra e um prazer trazê-la para este espaço. Conheçam mais do seu trabalho em Sede em Frente ao Mar.

Galeria: Jerome Abramovitch - IV

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Do meu caderno de experimentações - XLXXVI

tombos no

mar,


(quem?).


de ressaca: um pittbull

alcoolizado.


a espuma na boca.


tem raiva, será?

tem dor.


o sol esgarça a sua coleira

no horizonte,


(a ventania.


ouve-se um sopro de enxofre,

de sulfa,


contra a galhada de luz —

que ela se deite,


que ela se


incline sobre o mar atrás

dos olhos.


nenhuma réstia.)


os latidos se agigantam

como se fossem


ogros


por baixo das ondas.

é este o som.


a leitura da única bíblia

que existe


é o choro no fundo das

conchas.


rouco.


nenhuma voz. salmo-bicho.

a arcada à mostra,


de longe,


pontas de caninos.


todas as praias são cegas,

são surdas,


porque estão perto demais

da beirada do mundo.


(ouve-se o patinar dos seus

cascos —


cascalhos.)


hoje pergunto: quanto tempo

ainda há?


(quem?)


sei que, na orla, as crianças

queimam as mãos


de tocar o silêncio em seus

baldes e pás


de brinquedo.


nenhuma réstia. só o sonho,

talvez, marca


estrela.


(a última.)

Galeria: Jerome Abramovitch - III

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Do meu caderno de experimentações - XLXXV

existem mulheres cuja

nudez


gangrena os tecidos

do tempo.


a distância.


que sejam lentos os

homens.


a arca dos dedos, o

passo,


que venham aos

poucos.


porque elas prendem

correias


aos dentes do útero

durante o dia —


e a pedaladas, depois,

atravessam


a noite.

Galeria: Jerome Abramovitch - II