Sento-me no parapeito do silêncio. Se estender o braço para fora, cederei ao peso das mãos.
Porque mãos pesam quilos e quilos. Toneladas.
O amor rumina dentro dos dedos.
É muito difícil baixar o volume em noites assim.
Eu?
Nem ouso empinar a cabeça. Estou ensopada pela bruta sanguinolência dos ursos, que se espreguiçam e bocejam devagar.
(Pouso a mão sobre este sono. Peso.)
O amor rumina dentro dos dedos.
Nem ouso...
Em breve o meu rosto há de ser uma flor a se abrir ao meio-dia, implacável.
Sei que a música, o hino sulfúrico da morte, há de esbofetear — os dedos longos, longos, tanto amor — a minha face direita.
Oferecerei também a outra.

Ao ler teu poema nossos olhos conseguem captar uma atmosfera de espanto e de descoberta,um vazio no qual o eu lirico se oferece a algo que ele não sabe mas que ele espera.
ResponderExcluirbeijos mar
Genial.
ResponderExcluirSandrio, ótima definição... "Se oferece a algo que ele não sabe, mas que espera". Dar a outra face à morte, a este meio-dia de cegar, implacável...
ResponderExcluirRaul, acha mesmo?
Beijo...
Esse poema é lindo, Mar. Ao tempo que usa um lirismo drummoninano (Porque mãos pesam quilos e quilos/O amor rumina dentro dos dedos/Pouso a mão sobre este sono/O amor rumina dentro dos dedos) investe na agressividade poética de que tanto gosto em teus textos: “Nem ouso empinar a cabeça. Estou ensopada pela bruta sanguinolência dos ursos, que se espreguiçam e bocejam devagar.” Quando em breve seu rosto se abrir em flor, implacavelmente, ao meio dia, talvez eu consiga entender que dia e noite são apenas uma questão de luz e palavras.
ResponderExcluirNão posso ler mais de um poema seu de cada vez. Tenho que digerir lentamente um a um...
Beijo.
Celso.
Celso, na pressa, voltarei a este comment para comentar tbm :-). Obrigada! Mar
ResponderExcluirQuerido Celso,
ResponderExcluirSim, este poema tem exatamente o que você coloca... O lirismo misturado à IMENSA DOENÇA que corre debaixo das peles, o escuro, a violenta morte - cuja descoberta fará o meu rosto se abrir ao meio-dia...
Fico muito feliz que os meus textos te toquem, sei que é um leitor e escritor muito sensível... E eu particularmente sempre gosto de ler poesia, poesia de verdade, aos poucos, como diz Herberto: "Leitor: EU SOU LENTO".
Mas estou triste com uma coisa, vou noticiar por aqui dentro de alguns dias...
Beijos, querido,
Mar