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domingo, 17 de outubro de 2010

As moiras


Brevíssimos ensaios filosóficos II - Sobre a filosofia e os enigmas da existência

I

No primeiro capítulo do livro Aprender a viver, o filósofo Luc Ferry afirma que a origem da filosofia repousa sobre dois fatores: (i) somos seres que morrem e (ii) que têm consciência de que morrem. Único animal que sabe que, mais cedo ou mais tarde, deixará este mundo, o homem, argumenta ele, recorre à razão – o 'lugar' por excelência da filosofia – para ver de perto o desenho terrível do rosto de Átropos, a moira a quem os gregos atribuíam a tarefa de cortar o fio da vida. Se não podemos evitá-la, pensa o filósofo, então que pelo menos tentemos entendê-la. Sim, entendê-la, porque é precisamente quando entendemos um fenômeno que conseguimos aceitá-lo. Não é?
Talvez. Digamos, entretanto, que já houve tempos em que a fama subiu à cabeça da razão. Aplicado ao mistério da morte, da vida e da natureza humana, o então inofensivo verbo 'entender' ganhou, observa Nietzsche ao longo do Nascimento da tragédia, nas mãos de Sócrates feições um tanto quanto pretensiosas. Entender o desconhecido deixou – naqueles tempos em que os gregos experimentaram a mais profunda “fraqueza” – de ser uma maneira de aceitá-lo para se tornar uma maneira de aniquilá-lo. É Sócrates, conclui o filósofo, que encontra na luz de Apolo, o deus da harmonia, da ordem, do equilíbrio, uma verdadeira arma contra a manifestação de Dionísio, o deus da unificação entre homem e natureza, do caos, do êxtase e da total embriaguez. Uma rápida análise dos diálogos platônicos basta para nos darmos conta desse fato. Diferentemente do que acontece em relação aos escritos de Heráclito e Parmênides, que são anteriores a Sócrates, a filosofia de Platão parece consistir numa tentativa de oferecer respostas racionais a determinados problemas. Mistérios só são mistérios, insinua o grego, porque ainda não foram submetidos ao crivo da razão. A exemplo de Brutus, o traidor, a razão deve abraçar docilmente o desconhecido, este César sem Roma, para em seguida apunhalá-lo pelas costas. Talvez seja a um raciocínio mais ou menos desse nível que também Júlio Cortázar se refere ao dizer, no seu Jogo da amarelinha, que a razão destrói tudo aquilo de que se aproxima.
Mas por que desejamos tanto nos livrar do desconhecido? O que há nele que nos arrepia a espinha? O fantasma, segue Ferry, reside no medo que temos da morte. Por 'morte' não devemos entender aqui apenas o fim da vida. É do próprio Ferry a observação de acordo com a qual “a morte designa em geral tudo o que pertence à ordem do 'nunca mais' [a maldita fórmula que o corvo de Edgar Allan Poe diz e repete]. Ela é, no cerne mesmo da vida, o que não voltará mais [...]”. A essa ideia podemos acrescentar ainda a do parágrafo anterior: escuro entre escuros, inexplicável entre inexplicáveis, a morte é o que reveste também toda experiência de iminência do caos. São os seus cadavéricos dedos que nos cutucam aqui e ali cada vez que experimentamos algo que não conseguimos explicar, mensurar ou prever. Talvez sejam eles que tenham tocado as costas da personagem Ana, de Amor, um belo conto de Clarice Lispector, momentos antes que ela concluísse que, em sua vida, jamais o espanto, uma das faces do caos, do incontrolável, seria objeto de ternura.
O ambíguo, porém, é que, de tal ponto de vista, o enigma que somos forçados a encarar quando tomamos consciência da morte parece ter uma estranha relação de parentesco com o enigma que escolhemos encarar quando passamos por experiências intensas em nossas vidas: lidamos com o misterioso quando nos apaixonamos, nos deslumbramos diante de uma obra de arte, fazemos amor ou participamos de rituais religiosos. Mais do que constituir a experiência que caracteriza a consciência que temos da morte, o caos aparece por vezes no fundo daquilo que efetivamente vivemos. Quem sabe esteja aí o motivo pelo qual o mistério é ainda o que mais nos fascina. Não é em vão que, muito embora indisposta a voltar atrás, Ana admite que sua escolha em favor de uma vida totalmente isenta de espanto, de perturbação e de horror decorre da triste compreensão segundo a qual “também sem felicidade” se vive. Não esqueçamos que foi música, e não teoria, o que a musa pediu em sonho ao velho Sócrates.

Obs. Este texto foi publicado no Segundo Caderno do jornal O Nacional.